Prática processual

Intervenção do Ministério Público em família: quando é obrigatória

O art. 698 restringe a intervenção às ações com interesse de incapaz, e a Lei 13.894/2019 acrescentou a vítima de violência doméstica.

Ao contrário do que a prática de muitas varas sugere, o Código de Processo Civil restringe a atuação do Ministério Público nas ações de família, em vez de ampliá-la. A regra geral do art. 178 manda intimá-lo nos processos que envolvam interesse público ou social, interesse de incapaz e litígios coletivos pela posse de terra, e o art. 698 recorta esse conjunto com um advérbio:

"Art. 698. Nas ações de família, o Ministério Público somente intervirá quando houver interesse de incapaz e deverá ser ouvido previamente à homologação de acordo."

Divórcio entre adultos sem filhos menores, partilha de bens entre ex-cônjuges capazes e reconhecimento de união estável postulado por maiores dispensam a intervenção, e a intimação nesses feitos apenas consome tempo. O quadro mudou parcialmente em 2019, com a inclusão do parágrafo único do mesmo artigo.

As hipóteses de intervenção obrigatória

hipótese · dispositivo · o que ela exige
hipótesedispositivoo que ela exige
interesse de incapaz na ação de famíliaart. 698, caputintervenção como fiscal da ordem jurídica durante todo o feito
acordo a ser homologado em ação com interesse de incapazart. 698, caput, parte finaloitiva prévia à homologação, em acréscimo à intervenção
ação de família em que figure como parte vítima de violência doméstica e familiarart. 698, parágrafo único, incluído pela Lei nº 13.894/2019intervenção quando o Ministério Público figurar fora do polo ativo ou passivo
depoimento de incapaz sobre fato relacionado a abuso ou alienação parentalart. 699presença de especialista acompanhando o juiz, ao lado da intervenção

O parágrafo único do art. 698 tem redação que merece leitura atenta, porque condiciona a intervenção à posição processual do próprio órgão:

"O Ministério Público intervirá, quando não for parte, nas ações de família em que figure como parte vítima de violência doméstica e familiar, nos termos da Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha)."

A hipótese alcança a ação de família ajuizada por quem sofreu violência doméstica, ainda que todos os envolvidos sejam capazes, e se soma às demais consequências processuais da protetiva deferida, examinadas na página das medidas protetivas no juízo de família. A escolha de foro que a mesma Lei nº 13.894/2019 abriu à vítima está na página da competência por pedido.

O parágrafo único do art. 178 resolve uma dúvida recorrente em feitos que envolvem ente público, ao estabelecer que a participação da Fazenda Pública "não configura, por si só, hipótese de intervenção do Ministério Público". Inventário com discussão sobre imposto, portanto, atrai o Fisco sem atrair o parquet, e a intervenção nesses autos depende de haver herdeiro incapaz.

O que muda no processo quando o Ministério Público intervém

A posição do órgão nos autos está desenhada no art. 179, e ela é ativa. O Ministério Público tem vista dos autos depois das partes, é intimado de todos os atos do processo, pode produzir provas, requerer as medidas processuais pertinentes e recorrer. A capacidade recursal alcança decisões que as partes aceitaram, o que faz do parecer contrário um risco de prolongamento do feito, mesmo em acordo aparentemente pacificado.

O prazo é dobrado pelo art. 180, e conta da intimação pessoal. O § 1º evita que a intervenção paralise o processo: findo o prazo sem parecer, o juiz requisita os autos e dá andamento ao feito. O § 2º afasta a contagem em dobro quando a lei fixar prazo próprio para o órgão.

Na prática do escritório, a consequência mais visível está no cronograma dos acordos com criança ou adolescente envolvidos. A homologação depende de manifestação prévia, de modo que o acordo assinado na audiência de mediação segue para vista antes de virar título, e o cliente que espera decisão no mesmo dia precisa ser avisado disso quando o plano de convivência é firmado, matéria da página do plano de parentalidade.

A consequência da ausência de intimação

O art. 279 trata a falta de intimação como vício grave e a resolve em três tempos, cada um em um dispositivo. O caput fixa a regra:

"Art. 279. É nulo o processo quando o membro do Ministério Público não for intimado a acompanhar o feito em que deva intervir."

O § 1º delimita o alcance da invalidação, que retroage ao momento em que a intimação era devida, sem alcançar necessariamente o processo inteiro: tendo o feito tramitado sem conhecimento do membro do Ministério Público, o juiz invalida os atos praticados desde então. Em ação de família na qual a incapacidade surge no curso do processo, com o nascimento de filho ou com a superveniência de curatela, o marco é a data do fato que gerou o dever de intimar, e os atos anteriores permanecem íntegros.

O § 2º é o dispositivo que decide a maior parte das discussões concretas, porque submete a nulidade a uma condição procedimental: a decretação só se dá após a intimação do Ministério Público, "que se manifestará sobre a existência ou a inexistência de prejuízo". A parte que alega a nulidade em recurso, portanto, obtém a remessa dos autos ao órgão antes de qualquer anulação, e o silêncio do parquet sobre prejuízo tende a esvaziar a alegação.

Para quem redige a inicial, a providência que evita o problema inteiro cabe em duas linhas: qualificar o incapaz e requerer a intimação do Ministério Público desde o protocolo, deixando registrada a hipótese do art. 698 que sustenta o pedido. O rito completo das ações de família, com os atos que precedem a instrução, está na página dos arts. 693 a 699, e a organização documental que sustenta esses requerimentos, na página do checklist de autos.

Fontes

  1. CPC (Lei nº 13.105/2015), arts. 176, 178, 179, 180, 279, 698 e 699, texto compilado (Planalto); o parágrafo único do art. 698 foi incluído pela Lei nº 13.894, de 2019, e os demais blocos citados aparecem sem marca de alteraçãowww.planalto.gov.br

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